Sobre a nova velha pesquisa (“Butô de Bêbado Não Tem Dono” – Segunda Visitação)

por Raiça Bomfim

  Foto de Jade Prado

“Butô De Bêbado não tem dono” começou como uma frase lançada numa das conversas do grupo Alvenaria, em fins de 2010. Enquanto falávamos sobre corpo em crise, sobre desequilíbrio, sobre divisas e contornos borrados, sobre o corpo repleto de sombras da dança Butô e olhávamos para a Praça Castro Alves, para o começo da Av. Carlos Gomes, reconhecendo esses mesmos desequilíbrios, crises, sombras e borrões na ebriedade dos corpos da noite do centro da cidade, alguém pronunciou, “Butô de Bêbado não tem dono”. Passamos um bom tempo auscultando essa frase, até chegarmos nos corpos e situações experimentados durante as três apresentações nos bares Colon e Líder, em março de 2012.

Quarto experimento do Projeto Tricúspide, do grupo Alvenaria de Teatro, “Butô de Bêbado não tem dono” teve pouco mais de um mês para deixar de ser apenas uma frase-provocação ecoada ao longo de mais de um ano e ganhar corpo, espaço, desenvolvimento, repercussão. Nos ensaios em sala de aula, partimos de alguns exercícios aprendidos numa oficina com Tadashi Endo, oferecida no Festival Viva Dança de 2011, e da qual alguns integrantes do grupo participaram, e mais de outros exercícios criados dentro do próprio grupo a partir das pesquisas individuais e coletivas de seus integrantes. Seguimos em busca de algumas questões – as possibilidades de autonomia de um corpo mergulhado numa ordem caótica; a expressão do desejo num corpo em desequilíbrio; o movimento dentro do não movimento; o silêncio dentro de uma linguagem poli-sígnica; os pontos de renitência no corpo borrado e transitório; a luz na sombra e vice e versa; e mais um enorme gradiente de questões/mistérios reconhecidas antes, depois e durante as pesquisas que levaram às primeiras apresentações. Essas inquietações e a construção cênica delas foi desenvolvida em conjunto com nossas estagiárias e com artistas colaboradores das áreas de cenografia, iluminação, indumentária, música, audiovisual e fotografia.

Nas vésperas de apresentarmos, percebemos que, além de uma infinidades de dúvidas, tínhamos algumas motivações: travestir-nos das figuras híbridas que cada um encontrou como seu Butô e sua embriaguez, caminhar com elas até o bar, e lá, a partir dos encontros proporcionados naquele lugar, naquele dia, abrir aos poucos, e junto com todos, um tempo/espaço onde o butô e a embriaguez de cada pessoa presente, considerando a subjetividade e o mundo de questões já esboçadas nesse texto, fosse convocado a revelar-se.

Na divulgação, anunciamos que “Butô de Bêbado não tem dono” aconteceria a partir das 20h e dizíamos que “Numa livre adaptação de uma frase de Christine Greiner, podemos dizer que Butô de bêbado não tem dono é sobre capturar espíritos em um intervalo de tempo espaço chamado bar”. Assim, nos dias das apresentações, cada um dos integrantes do grupo arrumou-se em sua casa e partiu com destino ao bar, cada um a seu tempo, por volta das 20h. O bar estava funcionando normalmente e tinha como público seus frequentadores habituais mesclados àqueles que foram desejando ver o “Butô de Bêbado” e mais os passantes que se aproximavam para espiar/participar daquilo que estava acontecendo ali dentro. No Colon, ficamos até perto das 23h, porque o bar fechou. No Líder, adentramos a madrugada.

Muitas coisas aconteceram, muitos desejos e possibilidades se abriram, a cidade com seus fluxos e seres subterrâneos se espalhou por nossa criação e por nosso interesse. Quando pensamos no que faríamos na última etapa do projeto, em que, segundo o texto inicial, apresentaríamos um espetáculo que fosse fruto de tudo que havíamos experimentado ao longo do processo, acabamos por decidir-nos em expandir as fronteiras indefinidas do “Butô de Bêbado”.

Decidimos então por realizar o “Butô…” às quintas, sextas e sábados de maio, percorrendo, ao longo desses dias, uma sequência de períodos e trajetos. O plano é o seguinte: na quinta-feira, acontecerá na praia do Porto da Barra, no fim-de-tarde, onde nossas figuras irão ao encontro do mar (e de todo o Mah que ele abarca), da transição entre o dia e a noite (luz/sombra), das interseções entre o trânsito dos automóveis, das pessoas da praia e da calçada, das ondas etc etc etc. Na sexta, será novamente no bar, nosso ponto de partida, agora redescoberto no pós-praia. E no sábado, queremos ir ao teatro, a esse lugar de onde partimos enquanto um grupo de teatro, e ao qual voltamos com nossos corpos, máscaras e sentidos de representação inundados pela “Dança das sombras”, pelo mar, pela embriaguez, pelos desejos de ver e ser visto de perto, de dizer e ouvir em tons diversos, de confundir-se e reencontrar-se em outros, de dançar junto, de pulverizar os sujeitos da criação e outros etc etc etc.

 

 

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Um comentário sobre “Sobre a nova velha pesquisa (“Butô de Bêbado Não Tem Dono” – Segunda Visitação)

  1. Castro Alves e a liberdade do negro. e humanidade. o ideal de liberdade.o povo e a força. São Salva dor no mar no bar n’arena. Butô. só morri o que é mortu só vevi o que é vivu

    “O povo é como o sol! Da treva escura/ Rompe um dia co’a destra iluminada,/ Como o Lázaro, estala a sepultura!…” (O sol e o povo)

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