NOSSA SENHORA DO DENDÊ E O “VIL MONTURO”

(de Waly Salomão)

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Fotografia: Igor Modon

Tudo aperto e nada abarco, cheio de razão ardente, descarregado de mim ando no mundo. E este ar impregnado de dendê, de dendê, me faz gestar uma ideia maluca de uma Nossa Senhora d0 Dendê, dourada mulata que nem acarajé.

Tento recitar de cor o poema do jesuíta Hopkins “the blessed virgin compared to the air We breathe” mas não consigo.

Então principio a inventar uma Nossa Senhora do Dendê, dourada muqueca pairando sobre um pedestal de nuvens de El Greco.

Daqui deste “Vil Monturo”, epíteto exato dado por Gregório de Mattos, que usa em vão o santo nome do Salvador e pois suja a túnica inconsútil Dele; compadecei-vos de nós, oh! Senhora, de nossa tibieza, da moleza de nossa língua sem osso, da pobreza de nossos táxis sem pára-brisas – carcaças carcomidas pelo ferrugem das maresias –, das nossas secretárias que não transmitem recados e sofrem do mal geral de “me esqueci”, da nossa inaptidão total para romper o atraso, nós os impontuais por natureza e pois atrasados e atrasados e atolados na mais absoluta indigência, indigência maior do que o palude em que se afundou “the house of Usher”, e se duvidar que a nossa cárie é sem remédio descei a Ladeira da Palma e chegai até o Gravatá, até defronte o Corpo de Bombeiros e olhai aquele prédio com azulejo que era tão lusitano e belo e hoje não passa de uma postema cariada e sem obturação possível, nós os infestados de impaludismo alma a dentro, oh! Nossa Senhora do Dendê, compadecei-vos dos nossos garçons e garçonetes, risonhas bananas moles, afora os que por sorte cursaram o restaurante do Senac e que são tão peritos e bons e que depois desempregados sem solução porque o homem que manda no Turismo não olha para aqui em baixo e não vê passar a um palmo de seu nariz arrebitado de “status seeker” um Joel, uma Lucimar, um Otaviano qualquer, recém despejado do curso do restaurante Senac pois uma nova turma recrutada por Madre Tereza de Calicut já arrombou o ferrolho ou a taramela da pesada porta, oh! Nossa Senhora do Dendê, rogai, rogai, rogai por nós que recorremos a Vós.

Oh! Virgem abençoada comparada ao ar que respiramos! Vós que não fostes sequer imaginada pelo celestial pintor Fra Angélico que admiro e amo tanto e que neste “vil monturo” se conta nos dedos das duas mãos quem já ouviu falar, e cabe nos cinco dedos de uma só mão quem viu alguma tela dele.

Aqui campeia a mentira deslavada a que eles dão o nome de culhuda, de étimo indeterminado diria qualquer dicionário etimológico que fizesse o registro do termo. E os motoristas são os mais grosseiros e os pedestres os mais folgados do planeta, ambos campônios simplórios ilhados fazendo do trânsito um fliperama letal.

Emputecido estou, oh!! doce mãe do pão doce e do enjoativo cafezinho com três dedos de açúcar no fundo do copo, eu bem que tento mas caber não caibo na moldura deste quadro, não me enquadro por entre os caibros desta casa, gitano sou e madastra esta cidade onde reinais visível ao meu olfato e invisível aos vossos inconscientes adoradores, sois um bezerro de ouro fervente em cima dos fogareiros de latão batido.

Um olho agudo aguçado me diz que nem todos os santos e santas, que não há salvador que salve este armengue da sua paulatina ou desbragada corrosão. Não pressinto remissão possível, oh! sagrada senhora, para esta cidade-presépio da colina.

Rogai por nós, oh! Amarelo-gema de ovo do dendê.

Que tudo abarco e nada aperto.

Eia pois, advogada nossa! Salve Dona que se adonou do cocô da caganeira! Salve Rainha, Regina Coeli do torpor! Salve Soberana do empata-foda, da futrica, do fuxico, da fofoca e do banzo!

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