Butô de Bêbado Não Tem Dono

por Seu Zé

psicografado por Daniel Guerra

 

bem abaixo das narinas do castro alves

a duzentos metros abaixo do castro alves

do grande monumento castro alves

existe um pequeno boteco chamado

o bar do careca.

é lá que nós

os micróbios

fazemos

uma pequena reunião

todas as noites

chamada

teatro.

lá nós bebemos

de uma garrafa misteriosa.

todas as noites, nós, as minhocas

cagamos na fonte da ladeira da fonte

no intuito de um ritual mágico

de fertilização daquela terra

que fica aos pés do monstro sagrado

que apesar de não o saber

vive dessas pequenas bactérias

dessas pequenas manifestações

dessas pequenas histórias

cuspidas das bocas dos bêbados

das putas e dos travestis do âncora

que por sinal movimentam toda uma rua

enquanto aqueles que pagaram para ver da fila C

um grande concerto

estão inertes no seu sétimo sono.

e quando esses estão no seu sétimo sono

acontece um ritual intenso nas ruas que cercam

esse monstro sagrado de concreto

que se chama castro alves.

pois , assim como eles,

o castro alves também dorme às 22h

sem se dar conta que ao redor dele

e abaixo dele

existem fantasmas desejantes

que sustentam seus sonhos.

são os espíritos das cantoras

dos músicos e atores

e também e principalmente

dos pontos e contra-regras rancorosos

que agora encarnam nos corpos das putas,

dos bêbados e dos travestis de todos os bares e teatrinhos

que estão logo ali ao lado.

eles retornam para puxar o pé

das novas madonas enluaradas

e lembrar que o destino de todos

é estar ali embaixo, debaixo da terra,

que por isso eles devem procurar ouvir a voz dos mortos

ouvir o conselho dos mortos, seus sussurros.

um dia bethânia vai estar lá

e vai puxar o seu pé

também.

então nós estamos no bar do careca todas as noites

e cantamos a voz dos mortos juntos

e fazemos esse ritual de fertilidade microbiótica

e afirmamos

e re-afirmamos

que

a vida na superfície

só acontece por causa

de uma série de contrações

& espasmos

dos subterrâneos.

se você não quer descer

nós não vamos lhe impedir

mas depois não venha reclamar dos

fantasmas das óperas

quando a cortina vermelha levantar

e você estiver na sua cadeira 16B

e sentir um arrepio de morte

desde os calcanhares até a medula

ou uma voz dizendo

que

a vida na superfície

só acontece por causa

de uma série de contrações

& espasmos

dos subterrâneos.

e você,

ou vai ouvir isso e sair pra encher a cara

e comemorar essa grande revelação

num ritual antropo-órfico

em favor da vida

em toda a sua variedade de mundos

(que nem nós)

ou vai fazer que nem os noventa por cento

que vão continuar aplaudindo

esse espetáculo

onde não se sabe quem é

o cara que aperta o botão da luz

para iluminar o rosto da sua atriz predileta.

mal sabe você que o cara que aperta o botão

para iluminar o momento de êxtase da sua atriz

predileta, depois que acabar o espetáculo,

vai mover as pernas para um boteco.

esse boteco pode ser o bar do careca.

esse boteco pode ser o âncora do marujo.

esse boteco pode ser qualquer uma dessas partículas

de vida que formam o organismo da nossa cidade.

e esse cara da luz, embriagado,

vai se transformar em lady gaga

e vai cantar até de manhã.

e se nessa hora

o fantasma de uma grande atriz

dos tempos de harildo déda

der na telha de cair no corpo dessa lady gaga

pode ter certeza meu irmão:

amanhã de noite a sua atriz preferida não vai ter

nem uma vela para iluminar seu lindo rosto

e você não vai poder nem ser visto quando levantar

para aplaudir, e você vai perder seus tantos reais que depositou

naquela ilusão noturna, achando que assim contribuiria

para a atual cultura baiana, mal sabendo que antes de qualquer coisa

devia pagar seu tributo aos mortos, aos bêbados, aos artistas do âncora

e a todos os seres subterrâneos dessa cidade feita de limo e poeira.

de resto, quando você sair na rua escura para pegar um taxi,

faço votos para que sua nova namorada não dê um grito

ou desmaie ao ver a silhueta de um monstro

de ferro e lixo

chamado jaime figura,

mais conhecido entre nós

como

o profeta.

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3 comentários sobre “Butô de Bêbado Não Tem Dono

  1. adorei o grupo.. o bar líder do qual frequento foi tomado por uma atmosfera de cabaré cheio de personagens perturbadores.. não consegui distinguir todos claro..
    mas quero parabenizar o grupo.
    em especial a camilla sarno por quem tenho adimiração por seus trabalhos no cinema. foi muito bom vê la em ação tão de perto. vida longa ao Alvenaria. viva o teatro!!

  2. incrível esse poema. o centro da cidade se levanta diante do leitor, do ouvinte. todos os monstros e seres de trevas e luz estroboscópicas, todos esses fantasma se apossando dos bichos da noite. butô tem que aparecer de novo.

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