Um email sobre tudo (pós-visões de ana paula sobre fogueira e melancolia num email pra mim, daniel, mas para o grupo todo também)

De Ana Paula Brasil.

Estou em São Paulo há algumas semanas, mas segunda-feira, completa-se o primeiro ciclo de 7 dias. É disso que vivemos, de ciclos, mas hoje já nem sabemos o porquê, nem qual é o significado disso. Até agora, me convenço que o que existe é a vida, a morte e o tempo que te leva de uma a outra.

Fogueira e Melancolia

As duas coisas me aconteceram juntas, ou em sequência, há dois anos atrás. A grande coincidência está em ver as duas coisas, agora, dois anos mais tarde, juntas de novo.

À sua Fogueira

Sim, desta vez, eu vi um experimento. Das outras, vi um espetáculo ou algo muito próximo disso. O que difere Fogueira dos outros é o descompromisso com o discurso fechado, talvez, vocês não saibam disso quando o fazem, mas Fogueira tem um discurso aberto, não tem objetivo, nem lugar onde chegar. Fogueira levanta, instiga, cutuca, envolve, emociona, mas não fecha, não conclui. Isto é um problema? Não para mim. Isto me faz acreditar que é um experimento, não só de exercício cênico, como de exercício dramatúrgico, como de exercício de idéias. E, este último, é uma coisa que me agrada muito, pelo fato de que a gente nunca acompanha esta construção de discurso em teatro ou, em bem poucas vezes, eu não me lembro de ter sentido isto antes e nem pensado sobre isto antes. Numa peça acabada, o discurso já esta pronto. É importante que esteja, o papel do artista, ao meu ver, é elaborar pensamentos, elaborar visões e dá-las de presente, como você bem me disse, ao público. Fogueira pára antes disso, mas cumpre a sua proposta. É também um exercício de liberdade artística incrível, que fiquei muito feliz em ver fora da universidade. Além disso, teve muita coisa bela, cenas lindas que brotavam verdadeiramente do presente, a entrega das atrizes, a cumplicidade em cena, o jogo, o belo ritual resgatado por aquelas mulheres-bruxas. Eu gostei muito do que vi. Agora entendo a sua apreensão com o experimento, com aquelas mulheres… mas você soube muito bem, não exatamente conduzi-las, mas sim enxergar, libertar, misturar, criar e queimar com elas. Parabéns para você, para vocês, que apesar de tantas mudanças, não deixaram de ser um grupo coeso em cena.

À Melancolia

Lars Von Trier sempre me surpreende, é um dos meus favoritos. O início do filme, com aquelas primeiras cenas, as imagens lindas escrevendo uma poesia sobre o fim do mundo. É fantástico! Antes do filme começar, já amei a vida e chorei a morte do meu planeta. Se ele pretende isto no filme, conseguiu comigo antes de 3 minutos. Melancolia tem um discurso muitíssimo contemporâneo sobre a vida humana na terra. O que importa, e já não importa, as convenções, os rituais, o esvaziamento de todos eles, a morte e o fim. Enquanto eu via o filme, eu lembrei de Fogueira. Vê aquela mulher-bruxa de AntiCristo vivendo uma mulher calada na figura da esposa comedida, dama das escolhas perfeitas, e incapaz de perder foi um símbolo intenso para mim durante todo o filme. Não conseguia dissociar uma mulher da outra e, ao mesmo tempo, pensava por qual caminho aquela mulher se tornou esta… E, no filme, temos ainda outra qualidade de feminino, na figura da irmã louca, que já é a mulher de depois. A mulher que transcende a primeira evolução, mas se perde no meio do caminho, sucumbindo na descoberta de uma nova identidade. Esse caminho é o mais novo, é a estrada que não se sabe onde vai dar, mas esta mulher no filme, e muito provavelmente na vida, morre antes, tem seu mundo destruído antes, e não sofre com o fim do planeta, porque já não se vê nele. Essa mulher transcendental que não tem e nem quer nada para si, por medo de estar novamente presa, não reconhece a si mesma, assusta-se com suas próprias escolhas e vacila sob o poder de seu terceiro olho – que inclusive já viu o fim. É incrível. Incrível, ver uma mulher dizer para a outra que já não consegue casar e também que esperar o fim num ritual de vinho, dança e/ou velas é ridiculo. São coisas que não cabem. Qual o ritual da mulher de agora? Nem o casamento, nem a roda das bruxas – embora estas atitudes sobrevivam no feminino, coexistam ao mesmo tempo. A bruxa, a dona de casa e a transcendental caminham dentro da mesma mulher pelas ruas, dia após dia, cada uma tenta defender o seu lugar. A briga é interna e externa, as mulheres que assumem uma identidade brigam entre si pelo mesmo espaço social. A mulher continua na Fogueira, mas Fogueira não nos dá as respostas. Retornar a Fogueira, significa não parar de queimar. Mas até quando vamos queimar na melancolia? Este mundo precisa ser destruído para nos livrarmos desta forma de vida e irmos além. Lars Von Trier deve achar isto. Mas eu, que já destruir o mundo, tenho me perguntado o quê e por onde começar. É engraçado, após chorar estatelada pelo planeta Melancolia rompendo a tela do cinema, nasci de novo – e com certo otimismo.

Évoe. Vamos para a frente.

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