CINZAS, CINZAS, CINZAS

Por Danila Maia

 

“Somos um grande emaranhado de palavras e fios”.

Lili.

“Os que honram melhor os deuses pela dança são

também os melhores no combate”.

Platão.

 

    Ela observa seu altar que arrumou com tanto carinho, os detalhes, a luz, os colares, a água e os ovos, senta-se como quem acabara de amassar o barro, respira e fala qualquer coisa inaudível, não sabe, mas quando olha o caldeirão ferve, e uma velha mulher mexe com colher de pau o seu sabão na Baixa Mesopotâmia.

   Será que hoje vai acontecer?

   Acontecer o quê?

   Talvez uma evocação de energias primitivas dançando para uma única deusa, sem rosto, sem corpo, sem cor, uma deusa que se corporifica em seus olhares, entre si e entre nós. Expulsando, expurgando, comendo, alimentando, num redundante ciclo circular que entrelaça as brasas num abraço de barbante, uma dança que busca o cerne do desespero de cada um, o desequilíbrio, quando dançam de si para si, dançam comigo e em mim. Eu disse: talvez.

   Acende-me essa evocação de uma dança una, nos corpos eterna, que historicamente remete ao primordial, ás raízes universais dentro de outros umbigos.

   Acende-me pensar no papel de espectadora dessa dança, (se fosse possível desempenhar algum) no tipo de alimento corporal e espiritual que isso traz, sem ser um ritual religioso ou encenação ‘moldada’, que tenho pleno controle significante de seu início, meio e fim. Observo de um lugar distante de raízes tribais ou ligações extraterrestres, espectadora da construção do jogo e da composição de muitos ‘presentes’.

   Em cena esses seres criam e se transformam, se jogam no tempo e no ‘exercício da liberdade’, seus gestos espontâneos não interpretam e não representam, revelam-nos, não há atrizes com pleno controle, são jogadoras que em suas subjetividades deixam-se levar pelo agora, pelo instante, pelo impulso criativo do aqui e da necessidade do já. Sabem das regras, dominam a técnica, mas acima de tudo evocam uma energia que conecta o espectador, seja pela curiosidade primitiva, seja pela necessidade deste de aliviar-se de regras comportamentais dentro da relação teatral. Suas danças corporificam magia e encantamento, transformações internas e externas, a dança do público no plano das sensações, na matéria do irracional.

   “As possibilidades ritualísticas dentro da cena” a que se propõe o Grupo Alvenaria, aproxima-se de uma desteatralização por meio do improviso, como condicionante e condutor do jogo, abrindo para o público quais são as regras e se posicionando contra a sacralização dessa relação, o pacto se faz conforme as subjetividades se desenvolvem “o que Renato Cohen chama de ritualização do instante-presente, um processo de presentificação”, que permite um jogo aberto, sem estratificação ou hierarquia, horizontes infinitos que se abrem no espaço.

   Uma subjetivação cênica que permite a ruptura da linguagem convencional e objetiva, padrão imposto por macro estruturas, onde opera um olhar educado e polido, ‘sensato’ e racional. Um caminho potente á qual o grupo vem se dedicando, com imensas possibilidades de perturbação compartilhada, contramão á gestos pré-moldados, falas frias, e gostos sintéticos, no fluxo de desejos e angústias coletivas.

   Observo o processo de seu início prático, e vejo que seu resultado até o presente aproxima-se também do ‘teatro de vivência’, semelhante em sua estrutura á outros grupos de vanguarda como ‘Ói nóis aqui traveiz’ em suas práticas da ritualidade , mas as trilhas encontradas para tal são outras, tateiam na penumbra e jogam aberto: estamos aqui e também não sabemos onde isso pode parar.

   Signos, signos, signos…

   Experimento eu. Experimento tu.

   Atuantes autônomas guiadas por seus instintos conduzem-nos ao ato da fé, memórias traidoras nos fazem crer e nos permitir ás guias pelo caminho de outras percepções, energias, ondas, fluxos, raios, moléculas, átomos e toda infinidade bio- física- química que nos compõe. Engatinham. Em pedras pisam. E compartilham suas incertezas, buscando um lugar que talvez já estejamos.

   O caminho está aí, mas as portas são infinitas .

   Sem pretensões de qualificar, avaliar, ou conceituar, só relato de forma relapsa quanto ás normas estruturais tudo que talvez tenha visto, buscando apropriar desse presente, tirando dos olhos a faixa branca da aproximação, num processo contraditório entre a necessidade de ver de longe, mas dançar junto.

   Dancem Deusas! Dancem!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s