impressões daquele fogo

Dôra Araújo, uma das nossas mais próximas colabora(doras) e inspira(doras),

escreveu o poema que transcrevo aqui, sobre a nossa (e dela também) Fogueira:

 

Acenderam a fogueira num não lugar.
“Mãe, de onde vem este fogo?”
Tudo começou com todos os nomes. Cada nome era o verbo ser
e juntos cabiam na eternidade. Aquelas mulheres cerziam emoções,
mas não disfarçavam nenhum defeito. Permiti que me levassem
para longe de ali. Fiquei amarrada a mim, puída,
como que diante de um espelho, costurada desde as raízes da infância
até a velhice que me aguarda, pronta, cerzida, na esquina de
algum instante desta coisa que chamamos tempo. Memória
caótica e ritmada. Labareda incansável. Fogueira que não se apaga.
“De onde vem este fogo, mãe?”
Fiquei amarrada a mim, chorando, e mais o espelho quebrado aos meus pés.
Via tantas eus que sentia medo. Aquelas mulheres penduradas em seus cânticos
e lamentos, gozos, juras de amor eterno e ainda os esquecimentos,
aquelas mulheres plantavam lágrimas nos próprios olhos,
mas quem regava este jardim eram eles que se faziam redoma.
“De onde vem este fogo, mãe?”
Cerziam emoções, nos desnudava. Alfazema na tez. Aquelas mulheres

que cerziam emoções ficavam em frangalhos. E porque o faziam,

faziam com maestria e paciência. Densidade de imensidão.
“Mãe, de onde vem este fogo?”
Ah! Consciência! Lavaram meus passos e mais o caminho percorrido.
Deitaram a lua madura diante do meu futuro desperto. Envolveram a sensibilidade
do meu pescoço com colares de contas. Devolveram a minha filha morta. Quando
eu já quase extinguia desataram os nós que antecedem os laços
e eu percebi que a liberdade sempre me guiara. Percebi ainda que não era o
redor que me apreendia e sim o peso do útero que eu carragava.
“De onde vem este fogo, mãe?”
Fui lá fora ver e levei todos os nomes bordados na barra da saia que vestia.
Lá estando encontrei uma noite embriagada e uma lua que me sorria. Ao meu
lado um homem que não me alcançava.
“Mãe, de onde vem este fogo?”

(Dôra Araújo)

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