Do vir-a-ser e suas consequências

Por Daniel Guerra

Desde que fundamos o Alvenaria, cada vez que morre em mim mais uma certeza (e elas tem morrido constantemente), morre junto com ela mais um fragmento daquela máscara quase imperceptível que nomeei “diretor”, máscara cunhada desde 2005, quando adentrei os muros da Escola de Teatro e decidi seguir essa “carreira”. Lembro-me bem que havia até aquela heróica história do ENCENADOR (o grande conquistador), que nos fazia suspirar na frente do professor. Assim, fui, como tantos outros, acostumado a parir concepções. Muitas noites em claro, durante quase cinco anos, parindo concepções, tudo muito romântico, com uma flor azul na lapela, chorando lágrimas de Wilde. Escrevendo, reescrevendo, xingando, abençoando; muitas idéias, muitos conceitos, a cena inteira em cima da mesa, os peões, os cavalos, as torres. Todo diretor deve saber do que estou falando quando digo “parir concepções”. Você é criado para ser aquele personagem de Ionesco que bota pelo cu milhões e milhões de ovos de uma vez. Pois bem, eu fui criado para botar em média 10 milhões de ovos-idéias por semestre e ganhar um 9,0, ou melhor, ganhar um “você é mais uma promessa… etc”. E por muito tempo ficou em mim essa pelanca invisível, esse pensamento, essa certeza de que eu CONCEBIA. Eu dava à luz. Eu era a mãe da idéia. Eu “seduzia” os atores. Eles eram “seduzidos”. E até que eu não era uma má mãe-alcoviteira.

Mas tudo isso é uma pena, pois eu mal sabia (ou apenas pressentia) que a idéia não tem pertencimento. Hoje eu pressinto que o que você tem de fazer, e fazer bem, é armar uma boa armadilha para um pássaro invisível. Venho descobrindo que o grupo tem de criar uma atmosfera, um terreno, ou melhor dizendo, um terreiro para o surgimento, a brotação dessas forças. E na verdade, o que eu faço aqui é ter uma consciência mais geral dos corpos em trabalho. Meu trabalho é estar atento. É estar ali ao lado, é dizer “pode ir ao máximo, eu estou aqui, bem lúcido”. E às vezes eu vejo que em mim crescem peitos, eu viro mulher, eu fico mais velha, e de repente eu estou vestida de baiana: na verdade eu me transformei  em Ekedi. Ekedi: essa função foi o que mais me impressionou em todo o rito do candomblé, desde a primeira vez que o grupo pisou os pés num terreiro, em 2009. Mas, o que é uma Ekedi? Fique com a Wikipedia e tire suas conclusões:

“Dentre os cargos femininos na hierarquia do candomblé no Brasil, o mais conhecido é da Ekedi, como os ogans, elas não são possuídas por seu orixá de cabeça, ou seja não entram em transe, pois necessitam estar acordadas para atender as necessidades dos Orixás, Voduns ou Inkices para os quais foram devidamente preparadas para servir.”   

E eis então que o destino coloca a gente à prova mais uma vez. E hoje estou eu aqui, tentando levantar um experimento no meio de quatro mulheres totalmente potentes (e famintas) à minha volta. Aí toda essa bela construção da Ekedi é testada. Pois eis que surge inesperadamente um Penteu. Um homenzinho medroso, infantil, curioso. Aí eu fico ali num canto, observando, da moita, o rito proibido. E então minha mente já produz outra estrutura de consciência, uma nova adaptação produtiva: “eu preciso ser Penteu agora”. Para que aquele rito tenha efetivação, eu também tenho de ser um corpo ativo dentro dele, fazer parte, comungar, mesmo fazendo o papel de antagonista. Não posso continuar acalentando a idéia daquele ser neutro, o juíz-de-fora, o conceptor. Meu corpo também deve ganhar uma história dentro de tudo aquilo. Se minha perspectiva é levemente diferente da perspectiva dos atores, então essa visão deve entrar no jogo a partir desse mesmo ponto-de-vista, e destruí-lo de dentro. E dessa forma, a idéia vai entrando no nosso terreiro. A idéia vai virando corpo, vai possuindo o corpo das meninas, vai possuindo meu corpo. A idéia vai dançando na roda. Tudo isso porque o desejo tornou todos os corpos aqui “cavalos” dessa idéia. E, pensando bem,  tudo isso faz muito sentido, porque uma das coisas que vamos trabalhar nesse experimento é que o corpo dessas mulheres deve “ser dançado”. Elas devem dançar fora do corpo. Elas devem deixar o corpo dançando. Um dia eu disse: “Saia de casa. Deixe o corpo dançar sem você”. Porque eu acredito que dessa forma esse corpo já sem alma vai poder abrigar outras milhares de almas. Milhões de mulheres históricas vão poder dançar ali. Aquelas que foram queimadas nas fogueiras, que passaram centenas de anos esperando essa oportunidade de voltar, vão encontrar ali um meio de existência. Bom, eu tenho que dizer, à essa altura: em tudo isso eu acredito. Sim, é uma questão de fé. Mas não me chamem de espírita ou o qualquer coisa parecida. Eu apenas vejo isso como alguém que vê um fato, ou que topa com uma pedra. Eu também acredito que o grupo (a personalidade-grupo) também aponte para esse caminho, cada vez mais.

Quero terminar dizendo que se agora escrevo esse texto em primeira pessoa e totalmente atrelado à minha visão pessoal dos fatos é justamente porque quero ser honesto. Tudo que sai de mim parte de uma perspectiva pessoal (obviamente), e parte também da função que escolhi seguir dentro do grupo. Só posso dizer coisas a partir disso, e a partir disso sim, posso trilhar outras trilhas, e talvez sair de mim, ser Ekedi, ser Penteu, ser mulher. Falar de outra forma seria discurso charlatão. Como se eu pudesse me colocar na pele dessas que queimam todo dia na minha frente…

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6 comentários sobre “Do vir-a-ser e suas consequências

  1. Acho que tá na hora de diretores (e tambem produtores e atores) começarem a se expressar de maneira menos abstrata e complexa. William Shakespeare se nascesse hoje, morreria de fome. O mundo se expressa twiiticamente hoje em dia, com frases curtas e que a maioria entenda. É o absolutismo da era das comunicações. Get used to it!

    Peguei seu texto e mostrei para uma “moça da limpeza”, uma caixa de supermercado e um técnico de informática – todos eles me perguntaram antes de chegar ao fim do texto: “que diacho é que ele tá querendo dizer”?

    Depois não reclame que tem mais gente indo ver o show do grupinho de pagode da sua rua, do que os seus “espetáculos”. De repente a sua linguagem é tão abstrata que simplesmente não consegue atrair mais gente do que as pobres letras do psirico!

    1. Só porque tem gente que caga no prato e come não quer dizer que essa é a lei e a ordem universais.

      Os modos de produção e expressão são diversos. Deixa o Psirico com eles. “O absolutismo da era das comunicações” tem invertido e esvaziado as relações e todo mundo sabe disso.

      Concordo que esse é o modo de vida que escolhemos partilhar e quem não quiser se adaptar a ele que compre uma casa no campo. O ser humano get used to anything, é uma questão de tornar um estímulo familiar o bastante. E uma questão de vontade.

      Acho válido tornar o texto mais acessível se, e somente si, essa simplificação vier a adicionar valor em estrutura e/ ou conteúdo e não distorcer a ideia inicial mas mesmo assim, “a moça da limpeza” ou qualquer dos outros dois personagens podem continuar se perguntando “que diacho ele tá querendo dizer”.

  2. Raiça, minha fulô, Daniel, meu caro. Meus amigos do Alvenaria. Que saudade. Saudade de ver o Alvenaria em cena. Saudade de não ter estado mais próximo quando morava em Salvador. Mas as distâncias também aproximam. Recebi um convite de Raiça para a mostra de um experimento e acabei chegando ao blog. Hyperlinks e trajetórias da rede. E fiquei emocionado. Lindo o texto, Daniel. Lindo, delicado. Demasiado delicado como sempre. Evoé aos Ékedis e Ogans da Bahia. Vida longa Alvenaria.

    Que diacho bom de ouvir alguém dizendo. Alguém precisava dizer o que se diz nesse texto, e você disse. Suave emoção.

    Axé.

    Roberto de Abreu

    1. Roberto,

      Que bom ter servido de corpo para que sua voz ecoasse através. Porque é só nisso que eu acredito. Todos os corpos são portais, corpos-sem-órgãos. Se sua voz encontrou eco no meu corpo, então ela é digna de atravessá-lo, e se meu corpo foi digno de ser atravessado pela sua voz então tá tudo encaminhado para que essa época seja a nossa época. Isso é para nós, estes que só sabem viver historicamente, sem pequenas tristezas, sem alegrias inertes.

      abraço verdadeiro,
      de orixá pra orixá,

      Daniel.

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