CONTÁGIO E CURA

“Gritos, tambor, dança, dança, dança!

 Fome, sede, gritos, dança, dança, dança, dança!”

                                                         (Rimbaud)

E seguindo o fluxo, a dança vai surgindo, ganhando consistência, começam a rolar propostas de figurino, de elementos, a dramaturgia vai sendo, aos poucos, desenhada. E as palavras vêm soando com muita força, a partir do exercício do fluxo vocal: uma roda feita pelas quatro mulheres, alguns princípios partilhados – ritmo, grito mudo, dança dos ventos –, uma a cada vez entra, e aquela que esta no centro da roda nunca pode se calar, e as palavras vem numa torrente, desenterradas sabe deus de onde, palavras antigas, palavras novas, palavras, segredos, gritos, sussurros.

Recebi ontem o e-mail de um amigo com escritos sobre a dança, a fogueira, a comunhão, a sede e muitos et ceteras. Respondi pra ele hoje e transcrevo (e reescrevo) parte do que escrevi aqui, pra falar mais e mais (há tanto a dizer e querer) sobre a dança, as mulheres, a fogueira… :

Dança, dança, dança, costuras e costuras, unir pretérito e sonho, começo e fim, desejo e morte, paixão e calma, caos e orquestra. Costuras de palavras, ecos, assim o teatro, assim a arte, um grande tear, um grande espaço em que fios atravessam, perfuram, penetram, religam. Tudo existe, tudo existe clamando por um corpo, por um tempo/espaço. Ouvir, ouvir, dançar os ouvidos, dançar a voz, dançar para que nada estanque, para que no ápice do esquecimento abra-se a brecha e o mistério presentifique-se. Dançar perscrutando vozes, timbres, inconstâncias, silhuetas de palavras (…). Porque à volta, no balé apático do lugar comum, há tanto estilhaço, pedaços desencontrados, cara que não se liga ao verbo, gesto que não tem desejo (…). Fazer da dança o espaço em que pode surgir, sob o nome comum dos que nos cercam, outras figuras, figuras-vozes, figuras-palavras, figuras-gestos, existências diretamente ligadas a nós, gente nossa, vozes em coro, legião ao redor da mesma fogueira, ímpetos afins num encontro-estrondo. Sob o nome comum dos que nos cercam, pode soar, no espaço do encontro, no teatro, a voz sem rosto a qual sempre esperamos, a voz familiar que nos enreda. Percorremos ecos, corremos, galopamos, nossa revolução sendo o movimento extremo e simples de tirar o véu que cobre o rosto do desejo. E esse rosto é monstruoso, por isso, coragem, coragem para misturar-se a esse monstro, vestir-se de grotesco, banhar-se na lama. Impulso, impulso, motor, disparo, erupção, vem do centro do mundo, vem do centro do corpo, onde tudo existe, onde tudo é verdade, centro atado pelos fios às extremidades, corpo inteiro, impulso sem título, sem argumento, lato, vasto, retumbante. E se não é mulher, nem é homem, é feminino porque vem do oculto, porque vem do silêncio aprisionado no grito, porque sempre esteve fora da história, solto no íntimo do tempo e do caos. Dança, dança, dança, costuras e mais costuras, unir pretérito e sonho, começo e fim, desejo e morte, paixão e calma, caos e orquestra. Contágio e cura.

Final de outubro, em algum subterrâneo, nos encontramos todos para dançar!

Desde agora, e até lá.

(Raiça)

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Um comentário sobre “CONTÁGIO E CURA

  1. lindo trecho, imagem, texto…
    linda DANÇA!!!

    …acho que posso assim dizer, mesmo ainda sem “vê-la”…

    FLUÊNCIA livre e controlada no mesmo ESPAÇOTEMPO… o curar e o contagiar podem ter o mesmo PESO!

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