A dança, as mulheres, o fogo.

… Quatro mulheres que tinham como missão falar de amor, tema do projeto no qual este experimento se insere. Ou melhor, mais do que falar, precisávamos fazer amor: revelar num ato um sentimento próprio a nosso corpo e que nos lança para frente e para trás no tempo e no espaço. Mergulhar nos paradoxos do amor, em sua substância permeada de ternura e desespero, que desperta, ao mesmo tempo, o desejo voraz pela vida e o ímpeto destrutivo de consumir-se nela, dá lastro a um movimento complexo, capaz de, a um só tempo, penetrar e envolver. Um movimento que desafia os pilares das certezas e, desta forma, traduz um sentido revolucionário, um poder de transformação gerado pelo desvelamento de algo que estava oculto aos olhos da ordem. Movimento este semelhante ao da emersão de um poder feminino, e nós, buscando unir esses dois movimentos, sabíamos, de saída, o quão insondáveis seriam os lugares, formas e efeitos que experimentaríamos. Mas estávamos decididos a buscar caminhos para trilhar essa proposição.

Daniel trouxe a idéia da construção de uma fogueira que servisse como mote para o encontro dessas quatro mulheres. Camilla, no entanto, levantou uma necessidade ainda mais primordial, a de dançar: encontrar-se para dançar, sem a necessidade de outro pretexto para tanto. Dançar a dança das sombras, dançar a dança divina, dar gestos à memória e aos fantasmas que permeiam nosso movimento enquanto indivíduos e enquanto coletivo.

Das falas dos dois, que eu não conseguiria repetir com fidelidade, extraio a idéia que me sobreveio: se a fogueira física foi, em determinado momento histórico, elemento de contenção, punição, castração de uma força incompreensível e de efeitos misteriosos simbolizada pelo corpo feminino, era preciso agora construir uma fogueira mítica, capaz de queimar a fogueira medieval. Em outras palavras, fazia-se necessário deixar que o fogo queimasse o próprio fogo. Sendo o primeiro um elemento que desprende o movimento de suas formas rígidas, que liquefaz as grades do cotidiano, que se espalha, contagia, une os corpos numa massa de calor e que queima aquele outro fogo, o fogo inquisitório que reduz as potências a cinzas.

Era preciso dançar e dançar e dançar e nessa dança ser o “corpo de uma revolução sem corpo”*, ser o movimento de construção de uma fogueira sagrada, em cujo centro se recriasse e consumasse a palavra amor.     

(Raiça).

 

* Frase extraída de um comentário de Daniel Guerra

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