Sobre o momento da fogueira

    Entendi que este poderia ser um espaço de pensamento também. Pensamento para mim é sempre uma movimentação consciente sobre algo que também está em movimento, movimento inconsciente. Então me sinto livre para inaugurar este espaço de delírios sobre a incessante movimentação orgânica  do Alvenaria. Espero que com isso consiga abrir espaços de discussão tanto dentro do grupo quanto fora dele, e também incentivar que dentro do grupo outros integrantes tomem a frente nesta mesma tarefa, pois, como escrevi em um recente artigo: “Mais do que num corpo individual, um corpo coletivo sempre é surpreendido por forças que trabalhavam durante muito tempo escondidas dos olhos mais distraídos. Um grupo de pessoas está tão propenso a ser “cavalo” de uma força desconhecida quanto um corpo individual. (…) É necessário auscultar seu corpo periodicamente para perceber que movimentos estão acontecendo no seu íntimo.”

     O Alvenaria passa atualmente por uma fase de transição violenta. Não que todas as outras não o fossem, mas essa está se revelando mais potente, e por isso, mais perigosa. Poderíamos ser simplistas o bastante para dizer que o que aflige nosso corpo coletivo são as conhecidas augruras da vida de um artista frente ao estado. Por exemplo, poderíamos dizer que até hoje não fomos contemplados com o dinheiro que nos devem de um projeto aprovado pela Funceb no começo de 2010, e tantos outros fatores que já não são novidade. Mas, como não quero cair na superficialidade, digo que o “buraco é muito mais embaixo”, e mais complexo.

    Chegamos em um ponto de nossas atividades criadoras em que a própria criação começa a dominar e subjugar tudo aquilo a que chamamos produção. Isso quer dizer que tudo que venha a ser transformado em arte, no fim das contas estará sendo completamente balizado por uma força predominantemente caótica de criação, anterior a tudo (ou coexistente a tudo) e agressiva. Claro, isso acontece em qualquer lugar. Mas sinto que aqui a coisa está à flor da pele.

     Tínhamos programado uma remontagem de nosso primeiro espetáculo (Bakxai) para setembro. O que acontece é que, devido a algumas recentes descobertas muito sutis e alguns desencontros externos mais cotidianos estamos tendo de repensar não só esta remontagem, mas também o que seria a personalidade do nosso grupo. O que é uma remontagem? Pra quê remontar algo? Não estamos em outra época de nossas vidas? Precisamos expressar isso? Essa forma não morreu? Se estamos aqui para ser fiéis ao desejo, então porque cometer a insensatez de dessa vez ignorá-lo, mesmo que seja “um pouco”?

     Porque descobrimos com o tempo que nenhum método descoberto dentro do grupo pode viver bastante tempo para ser repetido em outra ocasião. Todo método criativo surge de uma necessidade. Toda necessidade surge do desejo, do encontro de desejos, da intersecção deles. É necessário ter tempo para descobrir o método da vez. Assim, todo conteúdo, toda temática deve nascer junto com a forma, e vice-versa. Para mim é inconcebível hoje que uma forma possa ser depois preenchida de conteúdo. Já olho com desconfiança as queridas “partituras físicas”…

    E, se toda forma/conteúdo nasce ao mesmo tempo, assim também deve brotar a “forma de produção” específica para este processo. E isso tudo pode entrar em conflito direto com algumas coisas fundamentais no “mercado de arte”: relações de produção e tempo, relação do tempo de trabalho profissional com o retorno fincanceiro,  e finalmente a relação entre o que é produto e o que é objeto dentro do que nós fazemos. É muito difícil gerir todos esses aspectos, equilibrá-los numa balança, quando se estudou apenas para criar. Existem coisas que que precisariam ser trabalhadas durante anos… e dá desgosto pensar que aquilo teria de “surgir” em seis meses por uma demanda externa.

     O que é preciso sacrificar? O tempo de trabalho, ou seja, o tempo de produção interno, ou o tempo de produção externo, da produção mercadológica? Aliás, é preciso sacrificar algo?

    Poderiam declarar inocência ou leviandade, mas não tenho medo de me perguntar hoje: o que é Teatro? o que faço é igual aquela outra coisa que existe aqui ao lado e que insistem em produzir da mesma forma? Realmente, O QUE É TEATRO? Não é uma pergunta retórica. Deve ser levada a sério.  É realmente preciso fazer Teatro? Que Teatro? Numa época em que o ator e o diretor sofreram modificações tão essenciais, e ganharam uma independência tão grande, porque reafirmar “Teatro”, com esse grande “T”?

    As coisas estão mudando. Basta colocar o ouvido no chão pra sentir o ruído da casa-de-máquinas. A história se fazendo de baixo pra cima, como aliás sempre foi. Não nos enganemos, somos do mesmo reino das minhocas. E nada disso vai passar na Tv.

Só resta decidir.

Abraços,

Daniel Guerra

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3 comentários sobre “Sobre o momento da fogueira

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